
No trabalho em tecnologia, não basta dominar ferramentas, linguagens ou frameworks: é preciso entender como o próprio cérebro funciona enquanto lidamos com contextos amplos, decisões rápidas e ambientes repletos de incerteza. Funções cognitivas como atenção, memória, raciocínio e regulação emocional sustentam nossas principais capacidades laborais. O artigo Como a TI mantém a cabeça em ordem explora como esses mecanismos atuam no dia a dia da engenharia de software e da liderança técnica, oferecendo ferramentas mentais para reduzir a carga cognitiva, combater armadilhas comuns e construir um desempenho mais sustentável.
Mas, além do artigo Como a TI mantém a cabeça em ordem, aqui no blog também temos diversos outros artigos sobre kubernetes, desenvolvimento, gestão, devops, etc. Veja alguns exemplos: Diferenças entre Paradigmas, Axiomas e Hipóteses, Desenvolver na empresa ou comprar pronto, Fuja da otimização prematura, entre outros.
Sumário
- Organizando a cabeça
- Conclusão de Como a TI mantém a cabeça em ordem
- Da cultura ao meme
- Construindo equipes de TI
- Gestão de TI em empresas de outros nichos
- Bounded Contexts de dependência mútua
- Não confio em quem não erra
- Como é a informação, vista como bem econômico?
- Desenvolvedor Impostor
- Desvendando o Context Map
Organizando a cabeça
Compreendendo as funções cognitivas do cérebro
As funções cognitivas são os “módulos” mentais que sustentam nossa capacidade de perceber, pensar, decidir e agir. Elas se apoiam em décadas de pesquisa da psicologia cognitiva, da neurociência moderna e da neuropsicologia clínica. Diversos cientistas de referência contribuiram para chegar a conclusão que essas são as funções, como e porque elas derivam determinados comportamentos.

Cada uma dessas funções tem bases neurobiológicas próprias: o lobo pré-frontal organiza planejamento e decisões; o hipocampo sustenta a memória; o córtex parietal cuida da atenção e do espaço; o temporal, da linguagem; o occipital, da visão; enquanto o sistema límbico regula emoções. Trabalhar com tecnologia exige raciocínio abstrato, inferência contínua, manipulação de contextos grandes, complexos e dinâmicos, além de uma tomada de decisão rápida, tornando o domínio cognitivo tão essencial quanto o domínio técnico.
O mapa mental acima exibe as nove funções cognitivas e uma breve descrição de cada uma delas. O objetivo do artigo não é se especializar absolutamente nesse tema por ser muito complexo e fugir das minhas competências. Mas use como base para o restante da leitura: poderá ser relevante.
Removendo a síndrome do Impostor
Certamente você já sentiu uma carga que vem de todos os lados, da sociedade, da empresa, dos amigos: é preciso se manter atualizado. Nesse momento um novo framework fantástico está sendo inventado e se você não o dominar em uma semana será descartado! Claro que isso não é verdade, mas de vez em quando nos pegamos envoltos nessas armadilhas.
Eu chuto que um dos motivos é que, por ter muitos temas a saber, não temos certeza se estamos no caminho certo. Outro é que há uma vida além da TI e dedicações à família ou amigos podem competir com a necessidade de manter-se atualizado. A verdade é que mais importante do que ter um hard skill da tecnologia A ou B, é ter o soft skill de entender abstratamente tecnologias e suas correlações. Quando houver uma necessidade real um estudo poderá ser feito.
Mas se sua função for de liderança, além do paragrafo anterior ser verdadeiro, talvez baste ter uma boa conversa com um bom subordinado. Agora, se você de fato não for bom ainda, você vai chegar lá se mantiver um estudo constante, como comentei no artigo ‘não deixe sua faculdade atrapalhar seus estudos‘.
Controlando a carga cognitiva em ambientes de alta complexidade
Se temos um ambiente de tecnologia muito complexo, um ambiente de mercado complexo e um ambiente do negócio da empresa complexo, temos uma bagunça na nossa cabeça. Veja que há duas complexidades (segundo Fred Brooks ao parafrasear Aristóteles): complexidade natural e complexidade acidental. A primeira é aquela que pertence a coisa que estamos observando, por exemplo, a movimentação dos astros no universo; ou a dinâmica do mercado imobiliário. Já a segunda é aquela que inferimos e perturbamos por colocar pontos de vista particulares, como a arquitetura empresarial ou de um software, que pode ter mais camadas ou fluxos do que o necessário.
Com isso, quero dizer que a compreensão do ambiente que nos cerca é algo útil e fundamental a medida que seu papel se aproxima da alta gestão de uma organização. Já, pessoas mais próximas da operação ficam mais perto das complexidades acidentais e naturais do software. São pontos que podem exigir muito das funções cognitivas.
Para tal documentações terceiras, diagramas, manuais, mapas, e outras ferramentas devem consolidar, simplificar e garantir que a linguagem ubíqua se faça presente. Fazendo isso parte da luta contra a complexidade acidental será vitoriosa.
Perfeccionismo versus procrastinação
Esses são problemas irmãos, filhos do mesmo pai: o medo de errar. O perfeccionista não tem clareza de quando está bom e gasta mais e mais energia para produzir seu trabalho. Muitas vezes atrapalha o time, entrega fora do prazo ou trabalha além do necessário. Ele entrega um nível de qualidade que pode ser superior, mas isso nem sempre importa, já que depende da contraparte.
Por outro lado a procrastinação vem do medo de entrar no contexto de trabalho exaustivo que o perfeccionismo gera. Para evitar a dor desse incomodo talvez rolar o feed do instagram dê uma retribuição de dopamina que o satisfaça imediatamente.
O que ajuda a reduzir esses dois problemas é a clareza e o uso de ferramentas. Portanto é necessário saber exatamente o que o cliente quer, como e quando. Isso ajuda muito a aliviar parte dessa tensão. Outra coisa é começar pelo mais difícil. Não pense duas vezes e comece, de tal modo que você se sentirá recompensado na largada. Isso substitui a rolagem de redes sociais e afins. Por fim, ferramentas de organização como GTD, matrizes de priorização e afins, podem ser o diferencial para tratar esse tema.
Medindo a carga cognitiva do time
Isso com certeza não é fácil, mas há alguns sinais que podem ser observados: PRs muito grandes, acumulo de deployments que não entram em produção, retrabalho frequente, muitos spikes. Mas também há sinais comportamentais ao ver uma presença mais tímida nas dailies, uma degradação das funções cognitivas, muito nervosismo e afins.
Se você nota coisas assim em você, talvez seja o caso de chamar sua liderança para uma conversa, mas isso depende da cultura da sua empresa. Por que, talvez seja o caso de procurar outra! E se você é um líder, passe a observar as funções cognitivas de seus subordinados. Isso pode trazer resultados surpreendentes.
Conclusão de Como a TI mantém a cabeça em ordem
Entender as funções cognitivas não é um exercício teórico: é uma forma prática de melhorar desempenho, reduzir sofrimento desnecessário e construir ambientes de trabalho mais inteligentes. Quando reconhecemos nossos limites e adotamos ferramentas de organização e simplificação, damos ao cérebro as condições para pensar melhor, decidir e viver. Liderar equipes ou evoluir tecnicamente deixa de ser um esforço de força bruta e passa a ser um exercício de clareza, estratégia e autoconsciência.
Ele atua/atuou como Dev Full Stack C# .NET / Angular / Kubernetes e afins. Ele possui certificações Microsoft MCTS (6x), MCPD em Web, ITIL v3 e CKAD (Kubernetes) . Thiago é apaixonado por tecnologia, entusiasta de TI desde a infância bem como amante de aprendizado contínuo.
