
Existe um momento curioso na vida de qualquer profissional de tecnologia em que tudo parece fazer sentido demais, até não fazer mais sentido nenhum. Oscilamos entre a falsa plenitude do “já sei tudo” e o terror silencioso do fu… No meio desse vai-e-vem cognitivo nasce o desenvolvedor impostor. Um profissional que ora se acha brilhante por ignorância, ora se acha um fracasso por excesso de consciência. E embora isso pareça apenas um dramalhão, essa gangorra mental afeta diretamente a qualidade do software, as relações dentro das empresas e a percepção que temos sobre nós mesmos. Este artigo costura Dunning-Kruger, síndrome do impostor, cultura, moral, política organizacional e a entropia do software para mostrar como tudo se mistura dentro da cabeça de quem escreve código.
Mas, além do artigo Desenvolvedor Impostor, aqui no blog também temos diversos outros artigos sobre kubernetes, desenvolvimento, gestão, devops, etc. Veja alguns exemplos: Diferenças entre Paradigmas, Axiomas e Hipóteses, Desenvolver na empresa ou comprar pronto, Fuja da otimização prematura, entre outros.
Sumário
- O Efeito Dunning-Kruger
- A Síndrome do Impostor
- Cultura e Moral
- A Entropia do Software
- Consolidando Tudo: A Mente do Desenvolvedor
- Conclusão de desenvolvedor Impostor
- O que é TR ou Taxa Referencial?
- Liberdade não é direito natural
- O que é o INPC?
- DDD: Variantes e Invariantes
- Bounded Contexts livres
- Nunca delegue sua carreira
- Feedback tático
- Observabilidade
O Efeito Dunning-Kruger
Vamos em um pouco de história, mas é quase uma piada. Então, um camarada passou suco de limão no rosto achando que isso o tornaria invisível para câmeras de segurança. Essa estupidez inspirou Dunning e Kruger, psicólogos, a investigarem por que pessoas com pouco conhecimento acreditam com tanta convicção que dominam determinado tema.
Primeiro ponto mais óbivio é que quando sabemos pouco não temos a dimensão da amplitude do tema. Em um segundo momento com a percepção clara do tamanho, fica mais notável que devemos avançar com cautela nas convicções. Mas isso é uma armadilha cognitiva que todos passamos.

O gráfico acima demonstra que se inicia o processo com muita confiança e pouco conhecimento. A medida que se tem um pequeno avanço no conhecimento essa confiança se desmonta por ser possível ter uma visão mais global e o esforço que é ter todo o conhecimento. Para quem persiste, há uma ladeira onde o conhecimento é sedimentado junto à confiança. Nem sempre isso é claro mas é a base para se chegar no platô e compreender que se domina, em certa medida, o tema.
Conhecimento, Habilidade e Atitude
Vale destacar que em ambientes corporativos se trabalha muito com o CHA (Conhecimento, Habilidade e Atitude). Portanto há momentos essencialmente teóricos em relação ao conhecimento que, embora seja fundamental, é apenas parte. Na minha visão particular, o aprofundamento teórico acelera a percepção do todo evitando alguns problemas do efeito Dunning-Kruger. Já a habilidade é a execução sensível e real ao tema. Se estou falando de gestão de projetos, uma coisa é estudar a teoria, outra é negociar um atraso com o cliente: ambos são necessários. Agora, de nada adianta isso se não há softskills de iniativa para realmente executar o que se estudou e, então, entra a atitude.
Para saber outros detalhes, os artigos Teoria versus Prática e Aprender a aprender me ajudaram a pensar em alguns detalhes desse.
A Síndrome do Impostor
Vamos agora para o outro lado extremo em relação aos efeitos emocionais e cognitivos do aprendizado. A tal da síndrome do impostor é igualmente cruel e pode destruir moralmente as pessoas. Muito cuidado com isso!
Seu eu sei que para um novo assunto vou iniciar achando que sei tudo por ignorancia, talvez por prudencia eu devo pensar que há muito mais e na prática não sei nada sobre o tema. A armadilha cognitiva aqui é que não é óbvio saber quando se está no pico de entusiasmo, no vale da desilusão ou mesmo na ladeira. Com isso, é possível que você acredite que é um ignorante, mesmo quando se tem muito conhecimento, habilidade ou soft skills específicos para o tema.
Cultura e Moral
A cultura é invisível e presente em tudo o que fazemos, incluindo comportamentos, gostos, desejos. Mas há também a moral, conceitos que estabelecem o que é certo ou errado. Tudo isso vive junto e, adivinhe…, isso impacta na maneira em que o conhecimento é visto no grupo em que você se põe.
Em grupos onde a maioria é engenheiro, trabalhando em navios, não será raro notar que há uma certa competição por quem sabe mais ou tem mais experiências em aplicar aquele conhecimento. Não estou falando que isso é certo ou errado, simplesmente é assim. Em outros meios, demonstrar conhecimento pode parecer pedante, esnobe ou nerd. Isso baliza, na cabeça das pessoas, onde é mais razoável ficar: uma visão que pode gerar mais o efeito Efeito Dunning-Kruger ou síndrome do impostor.
A Entropia do Software
Parece que estou mudando de assunto, mas não. Sistemas são coleções enormes de partes que interagem, mudam, quebram, se reconfiguram e precisam cooperar para entregar algo coerente aos usuários. O problema é que tudo muda ao mesmo tempo: o comportamento do usuário, a economia, as regras do negócio, a tecnologia, etc. Cada alteração impacta gerando uma nova onda de incertezas pelo sistema. Essa é a tal da entropia do software.
Se é verdade que a entropia do software é algo intenso, então é software é inerentemente complexo e exige muito de quem trabalha com ele. Conhecimentos profundos sobre as tecnologias envolvidas, a qualidade, as interações dos usuários, o mercado e etc.
Consolidando Tudo: A Mente do Desenvolvedor
Agora, chegando onde eu queria chegar, se o software é complexo ele é reflexo do mundo que o cerca. Ele consolida e automatiza a complexidade do mundo de modo a extrair valor para a sociedade. Quem fica no meio desse processo é o desenvolvedor que precisa, em certa medida, entender essas várias complexidades e traduzir em forma prática nos sistemas.
Portanto, mesmo um baita programador, muito experiente, se ele para ou mesmo troca de mercado, ele pode sentir que aquele conhecimento é inútil, ou pior, ele pode se julgar como um fracassado ou impostor. Já o Efeito Dunning-Kruger molda como o conhecimento surge e se consolida em cada indivíduo. A síndrome do impostor joga contra nossa autoconfiança mesmo quando somos competentes. A cultura define quanta ignorância é tolerada e quanta expertise é valorizada.
Na prática é possível que desenvolvedores vivam num turbilhão e é papel de gestores observarem isso. Essa condição de exagerada destrói a capacidade técnica e criativa do profissional e consequentemente das entregas. Por isso, a mente do desenvolvedor precisa ser cuidada. Não romantizada, não superprotegida: cuidada.
Conclusão de desenvolvedor Impostor
No fim das contas, trabalhar com software é navegar em um oceano de complexidade cercado por ondas culturais, morais e cognitivas que moldam nossa autopercepção o tempo todo. O desenvolvedor impostor não nasce de fraqueza, mas da combinação explosiva entre consciência técnica, ambientes exigentes e a natureza caótica do próprio software. Assim, a arrogância do pouco conhecimento e o medo do muito conhecimento convivem dentro da mesma pessoa, e isso impacta diretamente sua capacidade de criar, colaborar e entregar resultados. Então, cuidado para não se tornar um Desenvolvedor Impostor.
Ele atua/atuou como Dev Full Stack C# .NET / Angular / Kubernetes e afins. Ele possui certificações Microsoft MCTS (6x), MCPD em Web, ITIL v3 e CKAD (Kubernetes) . Thiago é apaixonado por tecnologia, entusiasta de TI desde a infância bem como amante de aprendizado contínuo.
